Pouco conhecida, afasia é uma das sequelas do AVC: “Eu tinha menos de 5% de chance de voltar a falar”
A afasia é caracterizada por alterações de linguagem que afetam a capacidade cognitiva, a fala, a linguagem verbal e a leitura [1]
São Paulo, novembro de 2025 - Aos 39 anos, Fabiana Sajorato sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico, causado pelo entupimento de veias e artérias que são responsáveis pela irrigação de diferentes partes do cérebro, que comprometeu diretamente sua fala. Professora do ensino fundamental, ela tinha na voz e no movimento seus principais instrumentos de trabalho. “O médico disse que talvez eu nunca mais voltasse a falar, pois a chance era de menos de 5%”, relembra Fabiana.
Após receber essa notícia no médico, Fabiana ficou dois anos sem conseguir pronunciar nenhuma palavra, mas a insistência no tratamento (juntamente com o apoio da família e da fonoaudióloga) trouxe resultados surpreendentes. “O processo de recuperação foi gradual e resultado de muita persistência. Foram sete anos de tratamento e acompanhamento intenso, com sessões de fonoaudiologia de segunda a sábado. Foi preciso reativar a memória do músculo da língua para reaprender a posição dela em cada letra, e assim formar palavras e frases”, explica.
Além da afasia, a professora teve uma redução significativa na mobilidade, em razão da rigidez muscular característica do pós-AVC. Aliada à prática de exercícios e a muita fisioterapia, Fabiana realiza há nove anos a aplicação de toxina botulínica tipo A, que foi essencial para a recuperação dos movimentos. “Hoje, o meu braço levanta, a minha mão não fica totalmente fechada, e todas essas conquistas são fruto desse tratamento combinado”, avalia.
Com todos esses avanços em sua recuperação, Fabiana sentiu que era o momento de iniciar uma nova missão: ajudar outros pacientes. Ela conta que nunca tinha ouvido falar sobre afasia verbal e, ao receber o diagnóstico, buscou informações sobre o tema, mas encontrou pouca coisa disponível. “Na época, pesquisando, encontrei um grupo de pacientes de AVC no Facebook e usei esse canal para conscientizar sobre a afasia e ajudar as pessoas com exercícios de fala”, lembra.
A iniciativa evoluiu para um projeto que oferecia aulas e atividades para pacientes com afasia em uma comunidade online e, no início deste ano, deu origem à Associação EVA (Existe Vida Pós-AVC, Existe Vida Pós-Afasia), uma instituição dedicada à conscientização e ao apoio a pacientes.
Hoje, Fabiana conduz um trabalho de mobilização pelos direitos das pessoas com afasia no Brasil, incluindo a proposta de inclusão da condição no Estatuto da Pessoa com Deficiência. “No início, eu me questionava a razão de tudo aquilo que estava acontecendo comigo. Hoje entendo que o propósito da minha vida é ajudar pessoas que perderam a fala e têm pouco ou nenhum recurso a se recuperarem”, finaliza.
[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Pouco conhecida e muito comum em idosos, afasia tem tratamento integral e gratuito no SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 05 abr. 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/abril/pouco-conhecida-e-muito-comum-em-idosos-afasia-tem-tratamento-integral-e-gratuito-no-sus. Acesso em: 11 out. 2025.
[2] BRASIL. Ministério da Saúde. AVC (Acidente Vascular Cerebral). Brasília: Ministério da Saúde, [s.d.]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/avc. Acesso em: 14 nov. 2025.
[3] CABRAL, N. L. et al. Increase of stroke incidence in young adults in a middle-income country: a 10-year population-based study. Stroke, v. 48, n. 11, p. 2925–2930, 2017. DOI: 10.1161/STROKEAHA.117.018531. Disponível em: https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/STROKEAHA.117.018531. Acesso em: 12 nov. 2025.





